5 Outubro, 2018

Ação Católica e Liturgia

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Autor:  Cónego José Ferreira

Citação: FERREIRA, José, “Ação Católica e Liturgia”, Novellae Olivarum 163 (1963), pp. 219-226

 

Já toda a gente repete que Liturgia é a vida da Igreja. Se bem que a sentença merecesse a sua explicação, o certo é que aceitando-a, e ela pode ser francamente aceite, qualquer outra manifestação da vida da comunidade cristã, porque a Liturgia não é a única, há-de ser confrontada com essa primeira e eminente, que é a Sagrada Liturgia. Isto será verdadeiro também, é claro, falando de Acção Católica, pois que ela é o movimento organizado do povo de Deus para a reconquista cristã do mundo cristão e conquista do não cristão.

Movimento organizado do povo de Deus, povo de Deus em marcha, sob a conduta de seus chefes, a Acção Católica, antes de todas as outras manifestações da sua vitalidade cristã, é comunidade litúrgica, isto é, comunidade para quem a sagrada Liturgia é a primeira forma de acção, pois que ela é o louvor de Deus, que tudo reconduz à unidade, à qual é preciso chamar todos os homens, para que todos, nela e por ela sejam (um só coração e uma só alma). Princípios estes, que é da máxima importância trazer bem compreendidos, quando é preciso determinar a relativa escala de valores cristãos dentro dum movimento cristão.

Nem se destina a outra coisa a acção apostólica da Igreja, senão a esta integração de todos e de cada um dos homens na «universal assembleia da caridade», como se exprimia Santo Inácio de Antioquia, cuja vitalidade suprema se encontra na sua vida litúrgica, que é a Vida de Cristo, louvando nela o Pai e por ela santificando os homens.

Aliás, santificar os homens, outra coisa não é senão fazê-los membros vivos e dignos dessa «assembleia de caridade» que é a «Igreja santa».
Demoremo-nos um pouco no confronto de algumas destas noções.
I. Igreja e Liturgia
Quando lemos certas passagens da literatura cristã, sobretudo antiga, de S. Paulo e dos Padres da Igreja, literatura apostólica ou mais chegada às fontes apostólicas, sentimos que a Igreja não se define com fórmulas abstractas, mas entende-se, sente-se, vive-se como algo, para o cristão, de muito concreto, de muito palpável, de muito espontaneamente sentido no coração e pronunciado nos lábios dum baptizado.

Para a literatura cristã desse período, Igreja é o Corpo de Cristo, (místico é já termo de escola, para evitar confusão com corpo físico), é a Esposa do Cordeiro, é a nova Eva, esposa do novo Adão, é a humanidade nova, é a comunidade dos eleitos, é a assembleia da caridade, é a cidade de Deus, é a Jerusalém celeste, é o reino dos céus, e tantas outras belas fórmulas, encontradas por quem apanhou aquela visão cristã da história de Deus, à luz da própria luz da revelação.

Todas estas formulações têm de comum a afirmação de que Igreja significa, antes de tudo e acima de outros aspectos, união a Cristo. Se é Corpo, é Corpo de Cristo; se é Esposa, é Esposa de Cristo; se é assembleia, (como o próprio nome de Igreja, ecclesia, indica), é assembleia à qual Cristo preside e dá unidade, vida e actualidade.

A Igreja é assembleia una, é comunidade (com + unidade). Vem-lhe esta unidade da mesma Fé, da mesma Autoridade, da mesma Vida. Mas nem esta Fé, nem esta Autoridade, nem esta Vida podem ser entendidas como tais palavras se costumam entender na linguagem profana.

Fé não é só consequência lógica do estudo ou da observação; Autoridade não é superioridade por nós concedida àquele que se escolheu para nos guiar e dar unidade; Vida, sobretudo Vida, não é sinónimo de actividade, de dinamismo, de capacidade de acção, como usamos dizer, falando da vida de qualquer sociedade humana. Tudo na Igreja é sobrenatural, o que vem a significar que não nasceu da carne, nem do sangue, nem do homem, mas de Deus. A adesão na Fé a Verdade revelada é movimento do Espírito de Deus; a Autoridade da Hierarquia é o poder de Cristo comunicado aos homens; a Vida de que se fala aqui é a presença no Corpo de Cristo (na Igreja, e em cada cristão), do próprio Espírito de Cristo, que é o Espírito de Deus.

A Vida da Igreja é a própria Vida de Cristo, não aquela vida humana e mortal que Ele perdeu (ou antes, que Ele deu) quando morreu no Calvário, mas aquela outra Vida que da sua natureza divina transbordou em plenitude l para a sua Humanidade santíssima e dela inteiramente se apoderou na hora da Ressurreição e se tornou gloriosamente manifesta e comunicada ao mundo, quando, no dia do Pentecostes, «o Espírito do Senhor encheu a terra inteira» (Intróito do Pente.). É desta Vida, a Vida de Cristo glorioso, a Vida de Deus, a Vida do Espírito de Deus, é desta Vida que agora vive o Corpo de Cristo, a santa Igreja.

Ora, sendo a Vida de Deus de ordem sobrenatural, não podemos ter dela experiência sensível. Por consequência, e para que não ficássemos no campo da pura espiritualidade, que não estaria conforme às exigências da nossa natureza, Cristo, encerrou toda a infinita riqueza de Sua Vida em sacramentos, na mesma linha em que Deus, para se tornar revelado aos homens, se incarnou em Cristo. Os sacramentos, adaptando se cada qual a determinada circunstância da existência humana, tornam, por assim dizer, palpável, em suas múltiplas aplicações, a única e infinita graça de Jesus Cristo. Acima de todos, porém, e como que servindo-lhes de fonte e origem, a Eucaristia, que é a presença sacramental da própria acção salvífica de Cristo – o seu Sacrifício- resumo de toda a sua Vida e presença de toda a salvação.

Ora, precisamente, isto é a sagrada Liturgia cristã, o Sacrifício eucarístico e a sua irradiação de vida e de salvação por meio de todos os outros sacramentos, vida e salvação estas, feitas objecto de oração, de louvor, de acção de graças, de humilde petição, de meditação, nas belas fórmulas do Ofício divino. Foi esta Liturgia, este serviço sagrado, que Jesus Cristo entregou nas mãos dos seus Apóstolos, dos seus emissários, como a palavra significa, para que eles a levassem aos homens, de todos os lugares e de todos os tempos, renovando a na comunidade, na Igreja, em acção sacramental, correspondente a cada circunstância da sua existência sobre a terra:

«Ide, ensinai e baptizai»;
e principalmente.
«Fazei isto (a Eucaristia) em memória de Mim».

Aqui está a Vida e a Salvação, a aviventar e a salvar. Donde, para a Igreja, outra forma não há maior de Vida e de Acção e de Apostolado do que a acção sagrada da sua Liturgia, onde Ela renova, sob a humilde imagem dos sinais sacramentais, a portentosa acção salvífica de Cristo.

É assim que a Igreja continua na terra, na acção sacramental da sua Liturgia, a acção salvadora de Cristo, até que tenha integrado todos os homens na mesma comunidade de louvor ao Pai, por Cristo, com Cristo e em Cristo. Por outras palavras, a Igreja é essencialmente e primariamente comunidade litúrgica.

II. Acção Católica e Liturgia
A comunidade da Igreja, em cuja construção a Acção Católica é chamada a cooperar, dissemo-lo, é comunidade litúrgica. Não que a vida litúrgica seja toda a vida da Igreja ou que todas as manifestações desta se hajam de reduzir à Liturgia; longe disso. Mas o que queremos significar é que a primeira e mais alta manifestação da vida da Igreja é a sua vida litúrgica e é por ela e nela que se constitui e vive a comunidade cristã.

Já atrás se insistiu em que não é a Acção Católica que tem a seu cargo o sector especial da sagrada Liturgia na Igreja, (se é que se pode dizer sector, falando de vida litúrgica). Todavia, deve afirmar-se que esta, a vida litúrgica, é primária e essencial para a Acção Católica, pela mesma razão que ela é essencial e primária, dentro da própria Igreja.

Movimento organizado dos leigos, cooperando no Apostolado da Hierarquia da Igreja, a Acção Católica não é algo à parte dentro da Igreja.

É justamente do facto de a Acção Católica ser movimento de cristãos, que a Liturgia, que é a vida religiosa da cristandade, é igualmente a vida religiosa da Acção Católica. Simples consequência lógica. E seria perigosa inversão de valores cristãos, dar maior apreço a valores menores, trocar o principal pelo secundário, reduzir o apostolado talvez a processos de propaganda.

Partir da Igreja, levando aos homens o Dom de Deus, presente na Igreja, sobre tudo no mistério da acção litúrgica, para assim os integrar nessa mesma Igreja, na comunidade do povo de Deus, louvando-O e glorificando- O com o próprio louvor que Ele nos deu para que com ele O louvássemos, tal é a curva de toda a acção apostólica.

Vejamos a concretização desta doutrina no caso narrado nos Actos dos Apóstolos. Descia Filipe pela estrada que leva de Jerusalém a Gaza, quando de caminho encontrou sentado em seu carro o ministro da rainha Candace da Etiópia, que lia sem entender o profeta Isaías. Filipe evangeliza-lhe Jesus, partindo daquele passo da Escritura, e logo o leva ao Baptismo, isto é, fá-lo entrar na comunidade da Igreja, pela acção sacramental que lhe traz a salvação.

Olhemos ainda a vida da primitiva Igreja de Jerusalém: eram assíduos à doutrina dos Apóstolos, à fracção do pão e à oração, e não havia entre eles necessitados porque tudo lhes era comum, contam ainda os Actos. A comunidade manifestava-se e fortificava-se na sua vida litúrgica, onde hauria no mistério do culto, a graça da salvação; daqui, a irradiação da caridade, porque, vivendo do Espírito de Cristo, as suas obras eram as de Cristo, pois que cada corpo vive do seu espírito.

Diz-se que a Acção Católica tem por missão reconduzir a Cristo a massa des cristianizada dos cristãos; preferíamos dizer: a Acção Católica tem por missão fazer da massa dos cristãos a comunidade dos cristãos, a Igreja dos cristãos, e consequentemente reconduzi-los à vida dessa comunidade que é a Liturgia.

A acção litúrgica toma-se assim a última etapa do movimento de recondução à Igreja, que incumbe à Acção Católica.

Ao dizermos, porém, «última etapa», não queremos afirmar que ela tenha de vir no fim de todas. Com «última» queremos apenas significar que ela é a mais perfeita manifestação da vida da comunidade cristã neste mundo.

E certo que são precisamente o templo, os padres, as orações do povo cristão que muitas vezes servem de obstáculo a muitos para que se aproximem e venham à Igreja; mas é, sem dúvida, por causa do descrédito dos respectivos rótulos tradicionais. Será então de não começar por lhes falar neles.

Mas o que nunca será escândalo para ninguém é a descoberta do sentido da comunidade e da caridade cristã que na Liturgia tem a sua mais alta manifestação.

Para nós, cristãos, é na Liturgia que nos sentimos, mais do que nunca, essa comunidade para os outros, se assim não for, terão que ser levados a descobri-lo, para que, vencido o escândalo, possam vir e todos nos encontremos no Senhor.

Já este facto do escândalo que muitos encontram nas próprias celebrações litúrgicas é tristemente significativo. Foi isso que a nossa comunidade deixou de o ser, para passar a ser multidão; e o mistério da Liturgia da comunidade que deixou de ser assim entendido, para passar a ser a acção misteriosa (!) do sacerdote, sem omitir a própria Eucaristia, que há de ser, até que o Senhor volte, a acção sagrada que O há de manter vivo na lembrança da Igreja e entreter em todos os seus membros aquela divina caridade de que o banquete é símbolo eficaz, pois que «somos um só Corpo, todos os que comemos do mesmo pão».

Imenso campo de conquista e de reconquista cristã! E não somente entre os que são indiferentes e hostilizam; mas para os bons cristãos. Para uns e para outros, a Igreja, a comunidade cristã, Cristo, numa palavra, há-de ser descoberto, como o foi pelos discípulos de Emaús, «na fracção do pão», na celebração da Eucaristia e, de maneira geral, em toda a Liturgia sagrada.

A comunidade dos apóstolos há-de tomar o seu dinamismo apostólico da celebração da Liturgia, como os primeiros que, do Cenáculo, depois da Ceia e da Oração onde receberam o Espírito Santo, partiram a anunciar a Boa Nova e a convocar a todos para a «assembleia de caridade». Igreja, etimologicamente, significa convocação.

Não se considere, pois, o pouco ou o muito que nesta matéria se vai avançando como certa espécie de luxo ou de qualquer coisa de supérfluo. Não seria católica sem vida litúrgica aquela acção que não nascesse da vida da Igreja e a ela não reconduzisse, a qual é a própria vida de Cristo, presente a todos os tempos na intemporalidade do mistério do culto que é a Liturgia cristã.

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