5 Outubro, 2018

Advento

DESCARREGAR PDF

 

Autor:  Cónego José Ferreira

Citação: FERREIRA, José, “Advento”, Novellae Olivarum 137 (1956), pp. 209-213

 

Quem se habituou a fazer conscientemente os gestos mais vulgares, não é sem emoção, que, todos os anos, ao findar o ciclo litúrgico, volta ao registo do missal romano do último domingo depois do Pentecostes para o primeiro do Advento. Aquele manípulo de folhas são, ao mesmo tempo, a mão cheia da colheita no termo de um ano, (como na imagem do salmista: «venientes, venient cum exsultatione portantes manípulos suos», [Sl 125]) e a carta-roteiro do ano novo.

Para falar com mais precisão, não se trata, nem de fim nem de princípio, mas apenas de avançar um pouco mais, sempre ao encontro d’Aquele que vem.

Ao ano litúrgico a Igreja prefere chamar o ciclo litúrgico, a roda do tempo, na marcha contínua da sua existência terrestre ao encontro do Senhor.

Realmente, o Senhor veio já, quando «se fez homem e habitou entre nós»; mas continua a vir nas múltiplas formas do seu encontro com os homens e vem principalmente à face da Sua Igreja, no mistério eficaz do Seu culto. Sobre o Altar Ele se torna presente, realizando o mistério da salvação; na proclamação da «Palavra da Vida», o Verbo Eterno ecoa de novo aos nossos ouvidos de gente desorientada, como voz sinalizadora do caminho; na oração da Sua Igreja, que mais não fosse que de dois ou três reunidos em Seu nome, Ele está no meio deles.

Até ao limiar da glória, a vida da Igreja é constante caminho para desvendar «a face do Senhor» que a cada instante também, se lhe vai fazendo encontrado, como aos dois discípulos na estrada de Emaús.

A vida terrestre da Igreja é, pois, um Advento contínuo, um constante encontro com o Senhor.

***

Porquê, então, estas quatro semanas antes da festa do Natal, com o nome específico de Avento?

Justamente e bem a propósito. Sendo o ano litúrgico, como fica dito, ciclo de vida que, a bem dizer, não termina, mas se solda no ano seguinte em continuidade vital, depois da constante ascensão em que se caminha desde o Pentecostes, já desde a Páscoa, já desde o Natal, depois, sobretudo, do anúncio escatológico dos últimos domingos verdes e, mais que todos, do último, com a sua leitura evangélica, rasgando ante os nossos olhos a perspectiva do Senhor que vem sobre as nuvens do Céu, a consumar a resposta ao «habitavit in nobis» da Incarnação, o «venite,… possidente regnum» da parusia, – justamente, a seguir ao tempo depois do Pentecostes, o tempo do Advento, o tempo da Vinda do Senhor.

É certo que o missal, colocando esta quadra no início do Temporal, parece fazer dela o princípio; mas nem, por isso, o Advento deixa de ser primeiramente a continuação lógica do ano litúrgico anterior, ao mesmo tempo, é certo, que o grandioso pórtico abrindo sobre o ciclo que se sege.

Este carácter misto de remate e de começo, que claramente se pode ler na liturgia do Advento, faz dele uma quadra inconfundível, profunda, onde se encontram o passado e o futuro – toda a história de Deus – vivida no presente de cada ano, pela celebração cultural da liturgia.

A história do mundo é um capítulo da história de Deus e, na história de Deus, o pretérito prefigura o futuro e o presente não é mais do que o futuro que o passado nos trouxe e a preparação do que o futuro nos há-de trazer.
***

Deus, que veio ao encontro de Adão no Paraíso, que se fez encontrado com Abraão sob a tenda de Mambré, que falou a Moisés do meio das nuvens do Sinai, e tantas vezes ao seu povo, pela boca dos Profetas, «nos últimos tempos falou-nos por Seu próprio Filho» [Hb 1, 1].

A Incarnação é o Advento definitivo, é, pelo menos, o princípio do último Advento, pois, assim como Jesus Cristo, Verbo feito homem, nunca mais deixará de o ser nem trará ao mundo maior aproximação entre os homens e Deus, assim, a era da Incarnação, inaugurada no presépio de Belém, não será substituída por nenhuma outra. Ela é o último tempo, «novissimis diebus», ou, segundo a linguagem da liturgia, o ocaso do tempo, «vergente mundi vespere»!

E a idade de Cristo, a idade da Igreja. A sua peregrinação neste mundo, por mais longa que se nos afigure, »até que o Senhor volte», e a própria entrada no Céu, «na glória de Deus Pai», não serão eras novas, e o Paraíso é tão somente o pleno meio dia deste dia que se inaugurou quando Jesus nasceu. A vida da Igreja na Terra – os nossos dias – são já o dia da eternidade, onde nós penetrámos, pela graça de Cristo.

O dia do juízo estabelece a Igreja na sessão definitiva, inadmissível, na morada do Pai; é a glória, o esplendor da graça. Mas a graça, semente fecunda da glória, essa brota do coração divino e humano do Redentor, do “Menino que nos nasceu, do Filho que nos foi dado», d’Aquele que durante tantos séculos, até à noite santa de Belém, foi o «Desejado das nações».

***

Donde se pode entender que o ciclo litúrgico, arrastando-nos ao longo do ano nos passos de Cristo, enquanto nos não leva à visão de Deus – essa hora de suprema misericórdia só o Pai a conhece – tem de nos levar de novo e sempre aos pés d’Aquele que de si mesmo disse: «Eu sou o caminho» – Jesus Cristo Senhor Nosso.

Por isso, à perspectiva grandiosa da suprema vinda do Senhor, na parusia, que o ciclo anual, domingo a domingo, vai tornando mais clara, sobretudo nas últimas semanas do ano e nas dos Advento, substitui-se ou antes sobrepõe-se, de novo, a aparição calma e sorridente do divino Infante – o Emmanuel.

***

O Advento coloca-se entre o final e o princípio deste ciclo anual ou antes é a sobreposição destes dois extremos. Princípio e termo, preparação e vinda, anúncio e presença, numa palavra, é tempo do encontro com «O Deus que era, e que é, e que vem» [Ap 4, 8].

Assim como o Natal não pressupõe que somos, como os pastores ou os magos, gente que ainda não conhece a Cristo, assim o Advento não é apenas uma transposição fictícia para tempos pré-messiânicos do Antigo Testamento.

A liturgia não é arremedo teatral. É a vivência, vivência de todo o mistério de Cristo, criando, no entanto, em cada quadra do ano, especiais disposições e concedendo graças peculiares, consoante é natural para a nossa condição humana. Utiliza ela certamente os exemplos e ensinamentos do Antigo Testamento em particular, para despertar em nossos corações a consciência do mistério de graça e salvação, que essas gerações, talvez mais que nós, souberam desejar, e que agora para os felizes que podem ver o que nós vemos e ouvir o que nós ouvimos, está presente no meio de nós, e no meio de nós de novo se vai desdobrar, no salutar prisma do ano cristão.

***

A melhor maneira de penetrar nas profundezas insondáveis deste santo tempo é abrir os livros litúrgicos – o missal e o breviário e meditar como a Igreja medita.

No breviário, cruzam-se diante do nosso espírito imagens grandiosas de majestade, temor, promessa, esperança e paz. Vai chegar Aquele por Quem todo o mundo suspira e Esse é «o poder de Deus, o Rei de Israel, a cuja passagem se levantam as portas da eterna mansão»; é «O Filho do Homem a Quem todos os povos tribos, línguas hão-de servir, cujo reino é eterno».

E é «Filho duma Virgem, toda cheia de graça que dará à luz o Filho do Altíssimo».
É «o Salvador»!
Para o mundo em trevas Ele é a luz.
Para os povos oprimidos Ele é o libertador.
Para os proscritos e dispersos Ele é «o Rei das Nações, que as há-de governar na paz.
«Ele próprio será a Paz, «erit iste Pax»
«Os Céus se hão-de alegrar e a terra saltará de contentamento, porque o Senhor vem».

E Jerusalém, o povo santo de Deus – a Igreja de Cristo – ouvirá mais uma vez da Sua boca palavras de consolação: «Não chores; o Senhor se apiedou de ti. Exulta, filha de Sião, rejubila, filha de Jerusalém; quebra os grilhões que te prenderam, cativa filha de Sião. Os estrangeiros não mais passarão por ti, deixando após si a ruína.»

«Os céus vão chover o justo; da terra brotará o Salvador. Montes de Israel, estendei ao largo os vossos ramos; carregai-vos de frutos, porque está próximo o dia do Senhor».

E no deserto de Judá e nas margens abruptas do Jordão levanta-se austera e majestosa a figura singular de João Baptista, para traduzir, em linguagem nova, a antiga mensagem de Deus ao Seu povo: «produzi fruto condigno do arrependimento».

Os homens hão-de purificar o seu coração e aplainar, antes que chegue o grande Rei, os caminhos tortuosos de suas vidas, levantando os vales de seus defeitos, deprimindo as colinas da soberba e do orgulho. «E vivamos com piedade e justiça, na esperança da feliz Esperança».

«É realmente a palavra do Advento: – Esperança – Esperança que é certeza. Por isso, o jubiloso Aleluia pascal continua a fazer ouvir as suas melodias a cada passo. E S. Paulo, no domingo cor de rosa, quer que seja na alegria, «na alegria do Senhor», que havemos de O esperar, a Ele, que aliás está perto de nós, que vive já no meio de nós.

***

Já o Arcanjo Gabriel desceu a Nazaré e a terra ouviu a mensagem inefável do Altíssimo, que Isaías pressentira sete séculos antes: «A virgem dará à luz um Filho e será chamado Filho do Altíssimo». A virgem Santa Maria! É ela «a terra orvalhada com o rocio do céu», «a – terra nostra – que dará o seu fruto, por benignidade do Senhor».

Exultante do tesoiro que em seu seio virginal encerra, corre às montanhas da Judeia a visitar a sua prima Isabel, para uma na outra admirarem as coisas maravilhosas que nelas «operou Aquele que é poderoso».

O menino de Isabel saltou de contentamento no ventre materno e foi cheio do Espírito Santo. E o frémito da universal exultação que o Salmista cantou para os dias da vinda do grande Juiz, em que «se agitará o mar e a sua plenitude, o mundo e todos os seus habitantes; e os rios baterão palmas e os montes pularão de alegria» [Sl 95, 13 e 97, 9]. Até o poeta profano, com menos certezas, porque sem as certezas do céu, mas não menos inspirado, que lho ditava o coração, igualmente inquieto por ver a face do Deus que lhe inspirava essa esperança, que já era a de Cristo, cantou:

«Aspice convexo nutantem pondere mundum
Terrasque tractusque maris coelumque profundum;
Asplce venturo laetantur ut omnia saeclo»

[«Olha, como na sua massa redonda estremece o mundo,
a terra, o mar e o céu profundo;
olha como tudo se alegra com a idade que vai chegar»
Verg., Buc. 4/50-53]

***

O Filho que Maria traz no seio vai ser cantado como a «luz grande que desce sobre a terra». E a luz começa de espargir os seus raios. Fenece a treva da grande noite, daquela noite que abraçou a terra quando o sobre o Paraíso se abriram as asas de Satã.
Ilumina-se de claridades esplêndidas a aurora da Redenção.
Zacarias canta o «Benedictus, dos «louvores matutinos»:
«Bendito o Senhor Deus de Israel, porque visitou e remiu o seu povo, … por Sua misericórdia que nos manifestou vindo do Alto, como o sol nascente».

«O Oriens, – ó Esplendor da Luz eterna, Sol de justiça, vem e ilumina os que estão sentados nas trevas e na sombra da morte».

Veni – vem! É a oração do Advento! É a oração da Igreja de sempre, neste Advento constante em que ela vai descobrindo, cada dia mais, a face do Senhor! Veni, Domine Jesu! É a última prece que o discípulo que Jesuss amou soube deixar à Igreja, para que Ela a reze, «até encontrar Aquele por quem o seu coração anseia».

E Ele vem. Onde? «Transeamus usque Bethlehem et videamus hoc verbum», diziam entre si os pastores. «Vamos até Belém e vejamos que Palavra é esta que o Senhor nos revelou». Esta Palavra, este Verbum é o Verbo de Deus feito Homem.

E ali, a seus pés, que o Advento nos leva, é Ele que o Advento nos traz, Ele, o Menino de Belém, a Quem porão o nome de Jesus – o Salvador – porque salvará o Seu povo dos seus pecados, mas «cujo império não terá fim»,
«o Cristo de ontem, de hoje, do século futuro»,
«o Cristo Senhor», como disseram os anjos aos pastores, Nosso Senhor Jesus Cristo.

É ele que aí vem e se nos vai manifestar – Ecce adventi! [Epifania]

0

Your Cart