5 Outubro, 2018

Mistério Pascal

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Autor:  Cónego José Ferreira

Citação: FERREIRA, José, “Mistério Pascal”, Novellae Olivarum 141 (1957), pp. 109-111

 

De há poucos anos para cá, que esta palavra – mistério pascal – tem vindo a despertar interesse crescente entre os cristãos. Para tanto têm contribuído não pouco a restauração, primeiro de Vigília pascal, depois de toda a semana santa.

A Páscoa, tradicionalmente capaz de evocar entre a nossa gente cristã ou, ao menos, conservadora uma tal ou qual ressurreição de alegrias era a Missa do Sábado Santo com o «aparecimento» do aleluia, as campainhas a tocar, os paninhos roxos a correr por cordelinhos da frente das imagens ou das janelas, obscurecidas para justificar aquele «haec nox est», às vezes, até o sepulcro aberto à boca do camarim de exposição do SS. Sacramento, com dois anjos evocativos, mais humanos que angélicos!….,—tudo imensamente teatral, imensamente humano, imensamente distante do mistério grande daquela «sacratissima nox». Páscoa era ainda a visita pascal ou o compasso, com o Senhor Prior de porta em porta a dar o crucifixo a beijar a todas as famílias da sua paróquia—coisa aliás belíssima e bem fundada no Ritual Romano [T. Vm, cap. IV]. E quando simplesmente se dizia Páscoa, entendia-se quase exclusivamente o sacratíssimo Domingo da Ressurreição.

Hoje, aparecem livros com o título de «mistério pascal», e sucede que alguns deles nada contêm do Domingo, mas se limitam simplesmente ao tríduo sacro, que o precede.

O novo «ordo da Semana Santa», que refunde toda a Semana Maior, a partir do 20 Domingo da Paixão ou de Ramos, já não atinge o Domingo seguinte. No entanto, ele contém a Liturgia soleníssima da Páscoa dos «maxima redemptionis mysteria».

Que é, então, a Páscoa?

É a Passagem, conforme a significação da palavra; a passagem que Cristo Senhor nosso faz da vida terrestre à vida celeste, passa não pela morte.

É a passagem da terra ao céu, do remo de Satã ao reino de Deus, da Morte à Vida.

Páscoa, não é festa isolada, autónoma. Está no termo dum processo. É o triunfo da Vida sobre a Morte. Supõe, por isso, o combate. A sequência do Domingo da Ressurreição o afirma, quando diz: «A morte e a Vida travaram entre si duelo espantoso; mas o Rei da Vida, que foi morto, agora reina vivo».

Páscoa é o reencontro da vida em Deus

Assim foi em Jesus. Embora Ele vivesse em contínua visão beatífica e a sua natureza humana estivesse pessoalmente unida ao Verbo de Deus, com a plenitude da Vida divina, todavia, porque se fez Homem mortal, pôde viver e morrer sujeito às contingências da nossa vida mortal. Só a Ressurreição constitui a Sua Humanidade santíssima naquela inacessível posse da Vida, que, por isso, é eterna, e faz que o Seu Corpo não esteja mais sujeito às fraquezas do homem terrestre; ao contrário, o Senhor é o Homem celeste, o Homem totalmente dominado pelo Espírito, glorioso, imortal.

Assim foi em Jesus, cabeça do corpo Místico da Igreja. Assim é nesta mesma Igreja e em cada um dos seus membros.

Páscoa é a celebração, no mistério do culto, desse triunfo do Senhor a favor dos homens.

É a festa de Ressurreição, da Vida nova, restaurada.

É a festa da nossa inserção em Cristo, da comunicação com essa vida de Deus, que n’Ele reina em plenitude e de «cuja plenitude todos recebemos».

É, portanto, a festa do Baptismo, e da renovação das suas promessas; da celebração da Eucaristia; da restauração da graça baptismal pela Penitência.

Em resumo, é a festa da Redenção, objectivo final da Incarnação do Verbo de Deus, a que S. Agostinho, com toda a razão, chamou «a Incarnação redentora».

A esta luz, facilmente se compreende a extraordinária Importância desta Semana, a que justamente se deu o nome de Maior, em especial, do tríduo sacro, em que se faz a celebração destes mistérios da Redenção, dos quais nasce a esplendorosa alegria pascal, a começar com o primeiro dia que segue a grande Vigília da Ressurreição – o Domingo – «o dia que o Senhor fez».

A esta luz, se compreende também, que, para restaurar a Fé e a participação nos sacratíssimos mistérios da Sagrada Liturgia – essas acções sagradas sob as quais nos é representada a acção salvífica que o Senhor, por nós, realizou, – a Santa Sé tenha refundido e tornado mais acessíveis os ritos litúrgicos da Semana Maior. Com fim eminentemente pastoral – disse-se, isto é, em ordem a fazer participar os cristãos da graça desses mistérios, em maior abundância.

Para isso, adaptou-se o melhor possível às necessidades hodiernas e o ainda recente decreto da S. Congregação dos Ritos veio abrir novas perspectivas de sentido pastoral.

Insiste-se fortemente na preparação desta Semana: «Os ordinários dos lugares prevejam a que os Sacerdotes sejam bem instruídos não só no que respeita ao ritual da celebração do Ordo da Semana Santa, mas também no que respeita ao seu sentido litúrgico e à sua finalidade pastoral.

Cuide-se de que os fiéis, no sagrado tempo da Quaresma sejam mais perfeitamente instruídos, em ordem a compreenderem convenientemente o Ordo da Semana Santa, de sorte a poderem participar na sua celebração, com espírito de compreensão» [instrução, 1].

E a Instrução da S. C. dos Ritos vai tornando-se claríssima ao apontar em concreto, alguns dos temas a serem esclarecidos e assimilados; entre outros, a compreensão do sentido dos dias, como o do Sábado Santo, e o das acções litúrgicas, como a da Sexta feira Santa.

E torna a insistir-se nas razões pastorais.

O Ordo, no que diz respeito à Vigília pascal, já tem seis anos; para os outros dias, somente um.

Que nos ensina a experiência destes anos passados?

Cremos que só lições de optimismo. À parte raras excepções, daquelas que corroboram fortemente a regra, aceitou-se e compreendeu-se alguma coisa do alcance das disposições da Santa Sé.

Alguma coisa, pode ser muito ou pouco e houve, certamente, de tudo. Seria curioso lançar e, como já se fez noutros países; inquérito sobre a aceitação e os resultados dessas celebrações. Seria optimista, estamos em crê-lo.

Mas optimismo pode não ser muito mais que atitude de esperança. E urgia que fosse mais. O Ordo da Semana Santa tem de ser aceite e realizado no espírito que a Santa Sé imaginou, ou então será uma cerimónia, morta à nascença, formalista e distante, ou, como se vai dizendo, será mais uma «receita», que se aplica, mas cujos resultados não serão automáticos. Para tanto, é necessária a preparação.

E a Instrução aponta, para isso, «o santo tempo da Quaresma». A nossa Quaresma, já tão esquecida, sem dúvida, conserva ainda muito do seu espírito. Os últimos anos têm visto este renovar-se consideravelmente. Graças a Deus! Mas não basta conservar-lhe ou orientar-lhe o espírito; é preciso dar-lhe um corpo.

A preparação quaresmal tem de visar o seu termo natural, a Semana Santa e, em particular, a Santa Vigília pascal. Perde-se, por vezes o sentido cíclico do ano litúrgico, principalmente desta primeira parte.

Os «tempos» litúrgicos são cíclicos, isto é, não autónomos, mas orientados uns para os outros, como a vida. A Quaresma prepara o mistério pascal, ao mesmo tempo que o tem já em si, porque, a Quaresma, tempo da morte ao «homem velho», pela graça de Cristo, é, por essa mesma graça, tempo de ressurreição do «homem novo». Mas, como grande catequese da Igreja, que é, e escalada ascética da montanha de Deus, ela é o tempo próprio para séria e sólida preparação da cristandade em ordem à grande Semana.

E cremos que, neste ponto, quase se não começou ainda. E é tempo, que o povo gosta, está espera, o Santo Padre quer, e «os grandes mistérios da Redenção» exigem-no.

As instruções de S. Congregação são, neste ponto da preparação tão claras, que onde se não possam encontrar três acólitos, mesmo leigos, para Quinta-feira Santa e quatro para a Vigília, convenientemente preparados, não se podem realizar as Sagradas funções.

Está, portanto, condenada a teoria, tantas vezes praticamente aceite, de que aos actos litúrgicos, sendo como são de ordem sacramental, e valendo como valem por si mesmos, lhes é indiferente a atitude da comunidade. Não; a liturgia não é algo de alheio ao mundo humano. A liturgia é acção divina, mas realizada entre os homens e a favor dos homens. Por isso, tem que ser entendida, sentida, vivida pelos homens. E estes homens são a comunidade cristã; e os sacerdotes os seus pastores, «dispensadores dos mistérios de Deus»
A Liturgia é a primeira acção pastoral.

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