5 Outubro, 2018

Nas trevas brilhou a Luz …

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Autor:  Cónego José Ferreira

Citação: FERREIRA, José, “Nas trevas brilhou a Luz …”, Novellae Olivarum 104 (1953), pp. 85-92

 

Quem há poucos anos atrás lesse no Liber Sacramentorum do Ex.mo Cardeal D. Schuster, O. S. B., o primeiro capítulo do quarto volume, sob a epígrafe A «Eucharistia lucernaris», sentir-se-ia transportado a um mundo estranho de séculos passados, onde se cruzaria com personagens como S. Jerónimo, o poeta cristão Prudêncio, Etéria da Aquitania, a peregrina dos lugares santos, Santo Agostinho, S. Paulino de Nola e outros, que falariam dessa vigília da Santa Páscoa do seu tempo, com acentos de entusiasmo invulgar. Qualquer de nós arderia então em desejo de ver ressuscitar com Cristo a Igreja do século XX, no meio de tamanho esplendor e de tanta unção religiosa, como o fizera a Igreja de outros tempos.

E eis que, inesperadamente para a maior parte do mundo, nos chega de Roma, há dois anos, o novo Ordo Sabbati Sancti, com a vigília pascal restaurada, ao jeito dos tempos primitivos.

Numa época em que se alvitram tantas actualizações em matéria litúrgica, e em que em tal assunto vão aparecendo experiências mais ou menos felizes, não nos deve passar desapercebido que a primeira grande reforma, certamente bem desejada, mas não esperada talvez, na mente da maior parte, fosse a Vigília Pascal.

Porquê? É que ela é o núcleo central do próprio ano litúrgico. O mistério pascal, celebrando actualmente a acção redentora de Cristo, realiza, por isso mesmo, no meio do mundo, a redenção do momento presente; e a vigília é o centro das celebrações pascais.

Está no termo da Quaresma, o grande retiro da Igreja. É a sua conclusão, não tanto para aliviar o peso e o silêncio do trabalho quaresmal, como para recolher o fruto de tão dura e longa sementeira, como se vê no salmo: «os que semeiam nas lágrimas, recolherão na alegria; à ida, vão chorando, enquanto lançam a semente; à volta, virão na alegria, empunhando as gabelas da colheita» [Sl 125, 5-6]. A Quaresma tende para a Páscoa; o retiro prepara a reforma; a penitência preludia a reconciliação; a morte do homem velho, condiciona a Ressurreição do Homem novo. Lê-se no Evangelho: «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, ficará estéril; mas se morrer, dará muito fruto» [Jo 24-25].

Ora a Igreja, que desde longe vem, em traje de penitente, jazendo na cinza e no cilício, isto é, na humildade e na penitência, peregrinando, como o povo de Israel pelo deserto em busca da terra da Promissão, ou como Jesus, no silêncio da montanha, quarenta dias e quarenta noites na oração e no jejum, a Igreja agora tem desejo veemente, como o Senhor que «teve fome» [Evangelho do 1º Domingo da Quaresma], de comer a Páscoa, de se banquetear, em alegre festim, com Cristo Ressuscitado [Cf. Lc 22, 15].

Outrora, o centro de especial interesse da vigília era o Baptismo dos catecúmenos, que para ele se preparavam com uma catequese intensiva ao longo da Quaresma, embora já antes da Quaresma frequentassem a catequese ordinária. Essa esperançosa colheita, a que a Esposa de Cristo dispensava tantos trabalhos e preocupações, ia sair, nessa luminosa vigília, de debaixo da terra, como Cristo das sombras do túmulo e aparecer no meio da assembleia dos cristãos; tenrinhos membros do corpo místico de Jesus.

E com que santo frenesim não esperavam essa hora «da nova criação» [Gal 6, 15], em que o Pai das misericórdias «olharia para a face da Sua Igreja e nela multiplicaria o número de seus filhos» [Bênção das Fontes Baptismais], aqueles catecúmenos que, ao longo da santa quaresma, de santuário em santuário, tinham vindo a escutar as palavras do Senhor, que lhes anunciavam a grande iluminação baptismal: «Aproximai-vos e sereis iluminados» [Grad. IV feir. IV Sem.]; «quando eu for santificado no meio de vós, derramarei sobre vós uma água pura e sereis lavados de todas as vossas impurezas e dar-vos-ei um espírito novo» [Ild. Intr.]; «vós, que tendes sede, vinde a estas águas; e os que não tendes com que as pagar, vinde e bebei com alegria» [Intr. Sab. IV Sem].

Hoje, os catecúmenos ainda não estão reorganizados, embora, na realidade, não faltem. Mas a vigília pascal foi restaurada. É que ela não interessa somente aos catecúmenos. É aos cristãos todos que a Igreja convida a estar vigilantes e a ressuscitar de novo. Já um dia fomos catecúmenos, talvez menos tempo, provera a Deus, do que uma Quaresma, e fomos baptizados, ressuscitando assim «da água e do Espírito Santo» [Jo 3, 5], um dia que foi a nossa Páscoa. Essa graça baptismal atingiu-nos de tal maneira a alma que nunca mais deixaremos de ser filhos de Deus, membros de Cristo. Temos para todo o sempre o selo de cristãos, que é o carácter baptismal. Mas como S. Paulo escrevia a Timóteo «ressuscita a graça que em ti está, que te foi dada pela ordenação sacerdotal» [Cfr. 2Tm 1, 6], assim a nós a Igreja nos manda renovar a graça que em nós está, que nos foi dada pelo Santo Baptismo. A vigília pascal, em que alguns, certamente poucos, serão baptizados, é, para todos os cristãos o momento de renovar o seu Baptismo. E aí temos, no cerimonial da Vigília pascal restaurada.

SOLENE RENOVAÇÃO DAS PROMESSAS DO BAPTISMO

O Baptismo foi a nossa Páscoa; a Páscoa é o aniversário do nosso Baptismo, mas o aniversário colectivo da Igreja toda. É a festa da sua libertação. Não é, pois, o Baptismo dos catecúmenos o motivo único da santa vigília. Esta justifica-se por si mesma e pela necessidade que dela têm os já cristãos. Ela é a grande expectativa da Ressurreição do Senhor, do regresso de Cristo das regiões da morte, da subida gloriosa do triunfador de Satã e do seu reino e de todas as forças do seu império, a morte e o pecado que lhe foi causa; é a certeza e o penhor de que a obra de Jesus não falhou, de que o calvário e o Sepulcro não foram o trágico fim duma grande esperança, mas o último golpe duma grande batalha e que a Redenção, por Cristo, vem agora a todos os homens que para Ele se voltam.

Por isso, a vigília pascal, celebrando a Ressurreição de Jesus, é a Ressurreição de toda a Igreja; Ressurreição pela Fé, que de novo se ateia; pela renovação quente, ardorosa e entusiasmada das promessas baptismais; pelo sacrifício eucarístico, que renova o próprio sacrifício redentor de Jesus; pela consciência e pela certeza que em nós faz renascer de que a vida nova trazida por Cristo ressuscitado é a Vida Verdadeira, a que faz o homem digno de toda a esta palavra, tão superior à vida puramente humana, quanto o novo Adão é superior ao antigo, quanto o que nasce de Deus está acima do que nasce do homem. Razão tem a Esposa de Cristo para a celebrar como a primeira das suas solenidades.

O facto de termos recebido o Baptismo em criança, de termos sido catecúmenos inconscientes, fez com que também inconscientemente tenhamos recebido o santo sacramento da iniciação cristã. E, pois, de todo o ponto útil, senão necessário, que um dia, chegados a idade adulta, nos compenetremos do que foi para nós esse momento, da vida que abraçamos, daquela a que renunciamos, das exigências e glórias que daí resultam.

Não existia até agora um determinado momento oficial, público e colectivo para o cristão reafirmar, em alta voz, perante Deus e a Igreja, a sua adesão a Cristo e ao Seu Corpo místico, que afirmou no dia do Santo Baptismo. A necessidade, porém, deste momento fizera sentir-se desde há muito, principalmente depois que a sociedade descristianizada não tomava por si, como outrora fizera, a defesa da consciência cristã em cada indivíduo. Obviou-se a esta necessidade com a cerimónia da profissão de fé, acto que tem estado junto com a chamada comunhão solene. E certamente com algum resultado. A experiência, no entanto, demonstra que a idade requerida para a profissão de fé não é, na maior parte dos casos, suficiente para que aquele compromisso possa significar muito na alma das crianças. Não se fala já no facto, infelizmente mais do que vulgar, de a profissão de fé se fazer mecânica e inconscientemente, por respostas determinadas a determinadas perguntas, como previamente foi ensaiado. Era, pois, necessário que o homem adulto fizesse a sua profissão de fé católica. E esse momento chegou. A vigília restaurada insere-a no seu cerimonial, profissão de Fé, não somente de cada indivíduo mas da Igreja toda inteira, na sua catolicidade. A solene renovação das promessas baptismais na vigília pascal é uma atitude de todos os fiéis, da Igreja como tal, e deve ser o primeiro grito saído da sua boca, após o silêncio e o retiro quaresmal. É, portanto, um gesto preparado, um momento vivido, uma atitude que define um futuro.

A própria exortação que o sacerdote dirige aos cristãos antes da renovação afirma que ela se faz, «uma vez terminados os exercícios da Quaresma» [Ritual da Renovação – Sábado Sento]. Não é um diálogo de palavras improvisadas, mas uma autêntica ressurreição no espírito, para a qual nos preparamos com a morte do «velho homem com os seus actos» [Col 3, 10]. É uma conversio, segundo a antiga significação do vocábulo, um regresso, como o do pródigo, um reencontro como o de Madalena ou o de Pedro e João, na madrugada da Ressurreição. Como não orientar para esse momento todo o trabalho ascético da santa Quaresma?

Mas eis que chega o momento. Vai tocando o seu termo, o Sábado, o grande sábado, isto é, o repouso. Como, depois da primeira criação, «o Senhor descansou, no sétimo dia de todo o trabalho que realizara» [Gn 2, 3], assim agora, após a segunda criação, que é a restauração da primeira, o Filho do homem descansa da Sua obra gigantesca, no silêncio e na escuridão da terra.

Há, no Sábado Santo actual, uma quietude como a que vai pelos campos depois da sementeira; sente-se a vida a querer brotar. O ofício divino fala de Paz, «in Pace» [1ª antífona de Matinas de Sábado Santo], como os grafitos das catacumbas. Pressente-se um grito de vitória! «Ó morte, serei a tua morte» [1ª antífona de Laudes de Sábado Santo]. Mas por agora é ainda o luto: «Jerusalém, despe as tuas vestes de alegria, porque em ti foi morto o Salvador de Israel» [2º resposório de Matinas de Sábado Santo]. O Esposo foi arrebatado» [Mt 9, 15]. E quando Cristo desaparece do meio dos homens, crescem as trevas.

É noite cerrada! Vai começar a grande vigília. A Igreja, como Madalena, não pode dormir. «Reclamando vigilat» [Exortação antes da Renovação – Sábado Santo], está de vela, porque O ama.

O MISTÉRIO DA LUZ. Como na primeira criação, «fiat lux». É a luz que primeiro vai aparecer. Da pedra que é Cristo [Cfr. 2Cor 10, 4], «pedra angular» [Efes 2, 20 e alibi] da sua Igreja sai o lume novo, que a bênção do sacerdote sagrará!

Dele se alumia o Círio, Cristo glorioso e resplandecente no triunfo da Sua Ressurreição! Guiada por essa «coluna de fogo», a Igreja penetra no templo. E à maneira que o círio prossegue, as trevas, sementeira de Satanás, recuam e fogem. A luz derrama-se em volta como um contágio na vela do celebrante, dos ministros sagrados e do clero, do «povo santo de Deus», nas lâmpadas e pelas paredes do templo; «fit lumen infinitum», diria Etéria [Peregr. Etheriae 24, 9]. E o mistério da luz, daquela «que ilumina todo o homem» [Jo 1, 9], que «não conhece ocaso» [Exultet]. É o mesmo significado da luz do Natal, então vindo do céu à terra para iluminar os homens a quem vinha salvar; agora, surgindo da terra para o céu, na glória fulgente da salvação já realizada!

Canta-se o louvor do Círio, louvor de Cristo ressuscitado. Ouve-se a última catequese: foi admirável a primeira criação; é mais admirável ainda a segunda, (1ª leit.); o Senhor salvou o seu povo pelo mistério da água (2ª leit.); o Salvador é Cristo, «o resto de Israel», que brotou como flor de graça e santidade no meio de um povo incrédulo (3ª leit.); vamos entrar na terra da Promessa, o reino de Deus, a Igreja; a lei do Senhor será doravante a nossa luz e o nosso guia (4ª leit.).

O MISTÉRIO DA ÁGUA – A sagrada vigília prossegue. Chama-se em testemunha toda a Igreja triunfante. É soleníssimo o momento ! Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, a Santíssima Virgem Maria e todos os santos estão presentes! Faz-se a bênção das fontes baptismais, que serão, por graça do céu, «o seio imaculado donde surgirá, qual nova criação, uma raça celeste» [Benção das fontes Baptismais]. Como «no princípio, quando Deus criou o céu e a terra», o Espírito paira sobre a água, infundindo-lhe o poder de regenerar. «Ex aqua et Spiritu Sancto»! [Jo 3, 5].

Se há catecúmenos, é o momento da grande iluminação, é a hora do Baptismo.

Mas, como estas considerações são antes para os já baptizados, passemos, sem mais comentário esse momento de milagre!

A NOSSA RENOVAÇÃO. Chegou a nossa hora. Não se repete o milagre do momento em que fomos baptizados. Deus não volta atrás nas Suas obras. Nós é que voltamos atrás e precisamos de regressar. E é o momento.

Na presença do céu, que acabamos de invocar, e da terra inteira, que espera, ela também, a revelação dos filhos de Deus [Rm 8, 19], diante do Círio, figura de Cristo, que arde no meio da assembleia e a quem o sacerdote tributa a honra do incenso, no meio dum mar de luz, que nos veio do Círio, de pé, como nos grandes momentos, depois de breve exortação, repassada da doutrina de S. Paulo sobre a teologia da morte para o pecado e da ressurreição para Deus, à semelhança de Cristo, três vezes afirmamos renunciar a Satã, e três vezes pronunciamos a nossa Fé em Deus, Criador, Redentor, Santificador, e na Santa Igreja, nossa Mãe.

Como que de novo nascidos para a vida de Deus, ressuscitados, enfim, com Cristo, exclamamos, com novo direito, como na hora do nosso Baptismo: «Pai nosso, que estais no céu!…» É o primeiro sorriso do filho recém-nascido.

O sacerdote pronuncia agora a mesma oração que acompanhou outrora a unção com o santo Crisma, logo após o Baptismo, pedindo a Deus que confirme com a Sua graça as nossas promessas. E espalha sobre todos daquela água que acabou de benzer, para que ela acorde em nós a graça daquela outra água, que há poucos ou há muitos anos atrás nos libertou do reino do pecado e nos entregou ao «reino, da santidade e da graça» [Prefácio de Cristo-Rei].

Passou o tempo do luto e das lágrimas, passou o tempo das dores, e como a mulher, que deu à luz que, depois de ter o seu filho nos braços, já não mais se recorda das dores passadas, para só se encantar com o fruto das suas entranhas [Cfr. Jo 24, 21], assim a Igreja toda ela agora se revê nos seus filhos que de novo lhe nasceram. «Imaculada, sem mancha, nem ruga» [Ef 4, 27], sempre Virgem e cada vez mais mãe dos filhos que Deus lhe multiplica [Bênção das Fontes Baptismais] ou lhe remoça, Ela pode, nesta noite santíssima, oferecer o sacrifício de Cristo, com direito novo! Antes, porém, a ladainha continua pedindo a Deus que não venha a tornar-se inútil o trabalho de Cristo e da Igreja. «Livrai-nos, Senhor! Nós Vo-lo rogamos!» Mas eis que o divino Ressuscitado vai aparecer.

MISTÉRIO DE FÉ. Missa da Ressurreição, da Ressurreição de Cristo (Evangelho) e da Igreja, (Epistola). Acção de Graças da terra libertada! Aleluia! Cântico imenso, universal, que sobe até ao coração do Pai, pela própria boca de Seu Filho! «Esta é a noite de que está escrito: «A noite iluminar-se-á como o dia; a noite será ela mesma a minha luz, no meio das minhas delícias [Exultet]. Este é o momento que, de há muito, o ofício divino diariamente nos anunciara: «Dia virá, o Teu dia, em que tudo voltará a florir» [Hino de Laudes da Quaresma]. Agora se torna real o voto de S. Tomás de Aquino: «Nova sin omnia, que tudo seja novo, o coração, a voz e as obras» [Hino de Matinas – Corpus Christi].

«Deitai fora o velho fermento; sede uma massa nova» [Epístola do dia]. E que «novos pela graça, cantemos um cântico novo: Aleluia» [Hino de Laudes da Quarema].

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