5 Outubro, 2018

O Anel da Esposa

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Autor:  Cónego José Ferreira

Citação: FERREIRA, José, “O Anel da Esposa”, Novellae Olivarum 120 (1954), pp. 290-296

 

Na véspera da sua morte, quando se preparava para ser baptizado no Baptismo do seu divino sangue e se dispunha a procurar a si próprio, à custa do duelo da cruz «a gloriosa Igreja», como Esposa «sem mancha nem ruga, mas santa e imaculada» [Ef. 5, 23], o Senhor entregou a Seus Apóstolos os mistérios do Seu corpo e sangue [Hanc Igitur de 5o feira Santa], ordenando-lhes, que assim fizessem pelos séculos fora, com estas palavras: Hoc facite in meam commemorationem [Luc 22, 19; 1Cor 11, 24-25].

Que significa esta palavra hoc? – O mistério da Ceia. E que é o mistério da Ceia? – O da Cruz. E que é o da cruz? – Toda a Nova Aliança de Deus com os homens, pelo sangue de Seu Filho, todo o pecado destruído, toda a Graça restaurada toda a Paz reconquistada, todo o triunfo do Amor de Deus sobre o ódio de Satanás.

Tudo isto o realizou uma vez por todas, na Sua vida histórica, Jesus de Nazaré, e de tudo isto foram testemunhas oculares os Apóstolos e discípulos de quem falam os Evangelhos.

Mas o mistério operado por essa vida do Homem-Deus transcende o tempo em duração, como transcendia em valor a compreensão dos seus contemporâneos.

O sacrifício eucarístico ficaria sendo, até ao fim dos tempos – donec veniat [Até que Ele venha: 1Cor 9, 26] – a presença no tempo do mistério extra-temporal de Cristo, para que a Igreja de todas as idades e de todos os lugares pudesse directa e imediatamente participar na oblação de seu divino Chefe.

Condescendência suprema esta de Jesus, e compreensão profunda da pouca facilidade com que os homens retêm a memória dos que um dia foram seus amigos!

Aquela Ceia foi na Nova Aliança o primeiro acto litúrgico. Os Apóstolos haviam de o repetir pelos anos além, e, em volta da celebração eucarística, nasceria, pouco a pouco, toda a liturgia cristã.

A Eucaristia não é apenas a presença do Corpo e do Sangue de Jesus, mas a Sua acção sacrificial, pela qual o Mediador da Nova e Eterna Aliança a Si mesmo se oferece imaculado a Deus» [Heb 9, 14].

Ora a vida de Jesus foi toda ela orientada no sentido do Sacrifício Redentor. Por isso, o Sacrifício eucarístico, actualizando o Sacrifício de Jesus, actualiza também, de algum modo, todos os mistérios da vida de Jesus.

No entanto, já por um lado a Eucaristia é memorial, em particular, da Morte e Paixão (o momento propriamente expressivo do Sacrifício) mortem Domini anuntiabitis [Anunciareis a morte do Senhor: 1Cor 11, 26] já por outro lado, o simples rito eucarístico não permite penetrar, nos reduzidos momentos em que se realiza, todos os muitos e ricos aspectos desses mistérios de Cristo.

Era por isso normal a organização do longo quadro de solenidades, onde a Igreja desdobrasse e decompusesse, como num prisma, um a um, todos os mistérios da vida redentora de Jesus.

Essa organização foi o Ano Litúrgico, organização dispensável, em absoluto. «A fracção do pão» em determinados dias, em particular no dia do Senhor, seria, até à segunda vinda, a constante e talvez suficiente recordação d’Aquele que as nuvens do monte das Oliveiras, em Quinta-feira de Ascensão, tinham para sempre ocultado a olhos mortais.

Mas é de todo o ponto evidente, que um ciclo de festividades evocativas dos principais factos da vida de Jesus seria oportuníssimo; hoje dizemos pedagógico.

Confirma-se a afirmação anterior, de que o ano litúrgico não seria, em absoluto, necessário, pelo facto da Igreja das primeiras idades não conhecer mais do que a festa pascal (além do ritmo semanal – dos domingos); confirma-se a segunda afirmação com o facto de bem cedo ter aparecido essa solenidade cristã, celebrando o mistério central de Cristo, em tomo do qual, como de seu embrião, tomaria corpo o restante ciclo litúrgico.

E foi assim que em cada ano a Igreja começou a celebrar todo o mistério cristão.

Quando se diz mistério cristão, entende-se o conjunto de todos os mistérios de Cristo, ou seja, toda a obra redentora do Senhor, iniciada na Incarnação, culminando no Calvário, prolongada na glória, – opus nostrae redemptionis [A obra da Redenção: Secreta Dom. IX dep. Pent.] – a obra a que Jesus se refere, com suprema Paz, à hora de morrer: opus consumavi quod dedisti mihi ut faciam [Terminarei a obra que Me deste para Eu realizar: Jo 17, 4] – a obra de Deus – Opus Dei.

Esta obra de Glorificação de Deus e Redenção dos homens foi trabalho de Jesus – os trabalhos de Jesus; mas porque Cristo aparece na Terra como «Cabeça do Corpo da Igreja» [Col. 1, 18], foi como tal, que Ele viveu toda a Sua vida, como tal, que Se imolou na Cruz e, como tal ainda, que Se imolará até ao fim dos tempos, sobre o altar: Hoc facite in meam commemorationem, …donec veniat.

De modo que a Igreja, Corpo Místico de Jesus, complemento e «plenitude de Cristo» [Ef 1, 23] total, ao celebrar os mistérios do Senhor, celebra mistérios que são igualmente Seus [Don Columba Marmion, Jesus Cristo nos seus Mistérios], que o Senhor lhe deixou em testamento, para que deles, como de fonte inexaurível, Ela tirasse de contínuo a água viva da graça de Deus, que jorra para a Vida Eterna [Cf. Jo.4, 14].

E precisamente, para que os mistérios do Senhor estejam mais à disposição de Seus filhos, a Igreja os distribui ao longo do ano. Cada solenidade nos vai apresentando cada um em particular. A ordem cronológica dos factos históricos evocados, serviu, naturalmente, de base a essa distribuição. Mas se eles se apresentam no ano Litúrgico à maneira de calendário de datas históricas, não se imagine que o Ano Litúrgico está concebido apenas à maneira de programa de comemorações.

É celebração, é vivência, porque as datas do calendário cristão litúrgico são datas vivas, como toda a Liturgia é vida. O que nela se passa é a presença no tempo, no plano sacramental, de sinais, de realidades extra-temporais.

As datas do calendário são certamente comemorações. A leitura do Evangelho ou doutros Livros da Escritura Santa põe quase sempre diante dos nossos olhos os factos, historicamente narrados, com todo o seu realismo de existência natural. Assim, no Natal, quando se lêem os capítulos de S. Lucas referentes ao recenseamento romano, ao nascimento de Jesus, à adoração dos pastores. Mas a recordação do facto histórico, não é evocação puramente imaginativa, como quando se lêem no almanaque as efemérides da história humana.

O facto histórico oferece objecto de contemplação. E, nesta linha de ideias, as outras Leituras e os Cânticos que enquadram a narração central duma solenidade, conduzem, mais ou menos directamente, ao trabalho interior de assimilação da doutrina dogmática ou moral que se desprende do mistério. Ainda no exemplo do Natal, a sua meditação leva muito naturalmente a actos de fé no Verbo Humanado e a interior atitude de humildade, de confiança, de Amor, como é espontâneo sentir ao ver sobre as palhinhas, «alimentado com um pouco de leite, Aquele de Quem até as aves do céu recebem o sustento» [Hino de laudes do Natal]. Sic nos amantem quis non redamaret? [Quem não há-de tomar com amor a Quem de tal modo nos amou? – Adeste, Fideles] Mas não é este só o objectivo do ano cristão.

Na celebração litúrgica os mistérios de Cristo não são só evocados, meditados, mas autenticamente vividos pela Santa Igreja.

O que significa esta vida, ou esta vivência? – Que ao celebrar cada mistério de Seu divino Esposo, a Igreja participa (partem capit, isto é, recebe parte) autenticamente, na graça própria desse mistério, porque cada um é portador da sua graça peculiar. E a celebração litúrgica é o modo normal de acesso a tal graça; pois que não falta a essa celebração eficácia própria para produzir nas almas a Graça de que o mistério é portador.

E evidente que o ano litúrgico não é sacramento, não actua ex opere operato; mas é igualmente certo que é sacramental, produzindo a graça ex opere operantis Ecclesiae, por superior eficácia da «Omnipotência suplicante» da Santa Igreja, embora segundo a disposição de cada indivíduo, como aliás sucede para os sacramentos.

A celebração da solenidade cristã tem a sua eficácia sobrenatural específica, de que beneficiam todos os que não se alheiam do sentir e do viver na Santa Madre Igreja.

Normalmente esta participação realiza-se por uma presença activa aos actos de culto (que não são meras cerimónias exteriores) em que a Igreja celebra o mistério, presença esta que implica naturalmente Fé, estado de graça, caridade; realiza-se pela oração recitada ou cantada da Igreja, que Ela nos colocou nos lábios para que seja igualmente de cada um de seus filhos. Realiza-se de modo sacramental na celebração eucarística com a comunhão no Sacrifício, com o qual sempre a comunidade cristã culmina todas as suas festividades. Realiza-se até pelos outros sacramentos.

Não deixa de ser útil observar que a administração de alguns deles está, por assim dizer, enquadrada no próprio calendário litúrgico. Além da Eucaristia, tantas vezes celebrada como que a propósito da celebração de outro mistério, o Baptismo, por exemplo, é, segundo velha tradição, sacramento da noite pascal, pois que a sua graça de Morte e Ressurreição é absolutamente paralela à graça própria do mistério celebrado nessa noite santíssima.

Há uma pedagogia sobrenatural, paralela à pedagogia natural, de que nem a Igreja nem Deus normalmente prescindem.

E assim foi que a Igreja consciente de que saía do lado aberto do novo Adão, adormecido na cruz, como nova Eva, Esposa lavada em Sangue imaculado, «tendo por dote a glória do Pai, perlada da frescura de toda a graça que sobre Ela difunde Seu Esposo celeste, qual formosíssima Rainha, a quem os próprios anjos fazem côrte» [Hino de vésperas da Dedicação de uma Igreja.] a si própria se adorna com o maravilhoso anel do ano litúrgico, no qual, dia a dia, se vai extasiando na contemplação e na comunhão dos mistérios que sendo de Cristo são igualmente seus.

Chamamos-lhe ano, sem atendermos talvez a que este vocábulo, no seu diminutivo, deu a palavra anel, termos em que se contém sempre a ideia de círculo. Por isso, velha linguagem lhe chamava anni circulum, o círculo ou o ciclo do ano. Em Matinas do Natal o Hino ainda hoje canta à maneira antiga: Testatur hoc praesens dies, currens per anni circulum [O presente dia, que agora vem no círculo do ano… – Hino de matinas do Natal].

Dentro do círculo imaginaram os antigos que se moviam as idades do mundo, as quais, uma vez dada a volta completa volveriam de novo ao princípio, em eterno retomo sem sentido.

A vida da natureza move-se também dentro do círculo. Depois do caos do inverno, surge a vida nova da Primavera; segue-se-lhe o verão em plena pujança, e o outono anuncia de novo a decrepitude; está outra vez à porta a estação invernal!…

No curto espaço de 365 dias há uma como que recapitulação de toda a existência terrestre.

É justamente sobre este esquema do ano natural, que a Igreja vai distribuir o seu ano litúrgico.

Cristo é o Sol – Ego sum Lux [Eu sou a Luz: Jo 8, 12; 9,5]. Quando o rei dos astros começa no horizonte descrevendo as suas órbitas cada dia maiores e o seu calor vai aquecendo a terra e despertando nela a vida, a igreja celebra o Natal do «Sol da Justiça» – Jesus – Oriens ex alto! [Sol que vem do alto: Cântico Benedictus, Luc 1, 78] Quando a primavera está em plena juventude, triunfante ao ressurgir da morte invernal, vem a Páscoa da Ressurreição – restauração em Cristo do homem velho ou envelhecido pelo pecado.

Quando o calor do estio começa a amadurecer os primeiros frutos do campo os ardores do Pentecostes, com todos os dons do Espírito de Deus, vêm levar a perfeito acabamento a obra que a graça começou nas almas.

Enfim, o desaparecimento lento da vida, a redução cada dia mais sensível da luz, uma como que aproximação da morte, quando as folhas caem inertes pelo chão, o sabor a fim dos meses de outono, colocam-nos instintivamente na perspectiva do Fim e do Advento do Senhor!

Mas aqui nos encontramos, ao cabo do círculo do ano, com novo caminho que o paganismo não conheceu. Este não soube nunca sair do círculo fechado da existência terrena. Deuses e homens, todos coexistiam a dentro desta rotunda sem portais que foi para eles o tempo. Existir o mesmo era que suportar, sem possível evasão, o que a tantos pareceu insuportável. Fora deste círculo, um só poder, misterioso e sem apelação, a que homens e deuses cegamente obedeciam: o Destino, o Fatum.

O cristianismo não. Quando o ano litúrgico fala de fim, logo fala de princípio. Assim como o sol, que parece precipitar-se de vez para o outro hemisfério, outra vez se ergue a dar vida nova, assim Ela, a Igreja, de novo começa o círculo do seu novo ano. O Advento, a Vinda do Senhor Jesus que Ela esperou e que de novo espera é simultaneamente prolongamento dum ano litúrgico e princípio de outro. A liturgia não conhece princípios sem antes, nem fins sem depois, porque ela « é como a refracção mística do círculo percorrido por Cristo » [D. O. Casel, in L’Année du Seigneur, D. Aem. Loehr, O.S.B., p. 27 ( 2 ) Jo 16, 28], o qual assim definiu, em admirável rota circular, toda a Sua vida: «Sai do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou para o Pai» [Jo 16, 28].

Enquanto andar «neste vale de lágrimas», a Igreja não desprega o olhar de Cristo seu Esposo, gravitando em tomo d’Ele, no círculo anual dos Seus mistérios, cega pela Sua Luz, presa do Seu amor, até n’Ele se precipitar na voragem louca da Divina Caridade, em perfeita união na Glória.

Ao anel místico que hoje é para Ela sinal de Fidelidade, se juntará então a coroa, que também é atributo da Esposa, e à qual a toda a hora o Senhor A convida, em místico diálogo que o Amor entretém:

‘VENI DOMINE JESU!’ [Vinde Senhor Jesus: Ap 22, 20]

‘VENI, SPONSA MEA, VENI CORONABERIS!’ [Vinde Esposa minha, vinde receber a coroa: Cant 4, 8]

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