5 Outubro, 2018

O Mistério da Cruz

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Autor:  Cónego José Ferreira

Citação: FERREIRA, José, “O Mistério da Cruz”, Novellae Olivarum 114 (1954), pp. 96-102

 

No rodar do ano, aproximamo-nos, mais uma vez, da celebração do mistério da Redenção. De novo a Cruz se vai levantar no Calvário, para vitória – aparente – da Morte; de novo, o sepulcro de Jesus ficará vazio, para triunfo – real – da Vida; e de novo a Igreja e cada homem cristão e todos os homens são chamados a ver, a meditar, a abismar-se na contemplação destes mistérios do Homem-Deus e – coisa nova da religião de Jesus – a participar activamente desses mistérios, que a celebração litúrgica torna presentes. Coisa nova, porque, na celebração que a Igreja fez da divina liturgia, no meio da assembleia dos cristãos, para os que não forem simples curiosos espectadores ou inconscientes devotos rotineiros, o mistério de Jesus se renova vivo, activo, santificante, dispensando aos homens a vida de Deus, num encontro autêntico do mundo terreno e do celeste.

«Conquanto não haja tempo, diz S. Leão Magno, que não seja cheio de graças divinas e sempre nos seja facilitado acesso à misericórdia de Deus, por Sua mesma graça, todavia, agora, com maior ardor e confiança nos devemos todos animar nos caminhos do espírito, agora que a tanto nos convida o dia aniversário da nossa redenção» [S. Leão Magno, Brev. Rom. I Dom. Quaresma].

Com estas palavras o grande Pontífice do século V, pregou à Santa Igreja o início da Quaresma. Já passaram quatro semanas na escalada da montanha santa: ascése, subida, trabalho de aperfeiçoamento do homem antes de se encontrar com o Senhor na glória pascal da Ressurreição. «Para com tão grandes mistérios se devia ter devoção e respeito de todos os momentos. Digno era que permanecêssemos sempre na presença de Deus tais como é justo que nos encontremos na própria festa pascal» [S. Leão Magno, Brev. Rom. I Dom. Quaresma], diz o mesmo santo doutor. E eis que se aproximam os santos dias pascais.

Entramos no Tempo da Paixão.

A Quaresma continua; estamos ainda no deserto, com Cristo, na oração e na penitência. Mas o Tempo da Paixão introduz no tom quaresmal um motivo novo. O Senhor Deus, o Filho de Deus incarnado, «o novo Adão» [1Cor 15, 45], vai realizar a sua grande Acção. O Salvador veio para salvar. O Redentor veio para redimir. E «venit hora: chegou a hora» [Jo 12, 23]. O Tempo da Paixão é o tempo de Jesus, da obra de Jesus; é o Tempo da Redenção.

Deste modo, com o aparecimento do «Homem das dores» [Is 53, 3], a Igreja responde à penitência e à dor de seus filhos com a dor e a mortificação de Jesus. Quando o homem se penitencia por amor de Deus, Deus depressa se lhe faz encontrado a encorajá-lo e caminhando à sua frente para o Calvário.

«Fulget Crucis mysterium»! [Hino “Vexilla Regis”] – brilha no seu fulgor o mistério da Cruz! Que mistério é este? A Cruz é o testemunho do Amor de Deus pelos homens. Ali se consumam os «trabalhos de Jesus», para fazer dos homens participantes da vida e da felicidade de Deus. «Consumatum est»! [Jo 19, 30] «In finem dilexit»! [Jo 13, 2] Amou até ao fim!

A Cruz é também o testemunho da loucura dos homens, da sua ingratidão, do seu egoísmo, e do seu orgulho, numa palavra, do seu pecado. Ali termina a caminhada de Adão e Eva e de todos os seus filhos, maculados desde a origem, fugitivos do «paraíso das delícias» [Gn 2, 8], para castigo e penitência de sua maldade.

Mas a Cruz é mais que simples testemunho; é balança de Justiça, onde o Sangue do Cordeiro de Deus foi achado de mais peso e valor do que todos os pecados dos homens; é altar onde o pecado se castiga e se redime, onde o Homem morre e, na Sua morte, oferece a Deus sacrifício de satisfação infinita; é trono onde o Rei da Vida vive e reina, sofrendo a morte. Diante da Cruz, a quem olhar para ela atentamente, misturam-se num turbilhão todos estes pensamentos de humilhações e grandezas, de pecado e de graça, de fracasso e de vitória, de morte e de vida!

Misturam-se mas não se confundem.

Na verdade, a Paixão é, antes de mais, um castigo, decretado desde longa data, desde o paraíso. Deus disse a Adão: «Na hora em que desobedeceres à minha vontade, morrerás de morte» [Cfr. Gn 2, 17]. De Adão até Cristo a morte imperou sobre a terra. Adão ouviu a sentença para toda a sua descendência: «morrerás de morte». Cristo Senhor nosso, novo Adão, novo Chefe de humanidade, apresenta-se diante do Pai como responsável por todos os de Sua raça. Ele é inocente, «Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro» [Credo da Missa], como Deus é o Pai que O gera nos esplendores de glória. Mas, feito homem, «em tudo igual a seus irmãos» [Hb 2, 17], para os reconciliar com o Pai, toma sobre si a responsabilidade de todos os homens. Deus como que desaparece debaixo da montanha incomensurável dos delitos humanos. «Aquele que não tinha pecado, Deus O fez pecado por nós, para que nos tomássemos n’Ele justiça de Deus» [2Cor 5, 25]. A Seus ouvidos chega, portanto, a sentença original: «Morte morieris! Morrerás de morte»! A Paixão é este castigo do pecado do homem. Por isso, ela devia ser humilhação, sofrimento, morte.

A liturgia desta quinzena vai-nos mostrar «o Homem das dores, desprezado, humilhado, verme que não homem» [Cfr. Is 53], como o hão-de descrever os cânticos e leituras das missas estacionais, mormente no domingo de Ramos e na Quarta-feira Santa.
A morte é arma de Satanás, é «o estipêndio do pecado» [Rm 6, 23]. Jesus quer passar como pecador. E sofre como paga a morte, que a nós era devida. Satanás triunfa, aos olhos terrenos, e só transitoriamente, d’Aquele que prometia aniquilar o seu reinado. Jesus assim o quis. «Esta é a vossa hora, a do reino das trevas» [Lc 22, 53], disse aos que o vinham prender. Mas a morte de Jesus é morte do Justo, do Filho de Deus; é morte de Redenção. No Calvário, Satanás trabalhou contra si mesmo.

Mistérios dos caminhos de Deus!

Vejamos agora o reverso da medalha. Na segunda leitura da missa de Quarta-feira maior, diz-se que Jesus «se ofereceu porque assim o quis», e, na primeira, alguém que O contempla, como após grande batalha, purpureado todo em sangue, pergunta quem é Aquele que avança tão magnífico no seu vestir, calmo e sereno, como lutador forte que se bateu em glorioso combate? – Porque assim é vermelha a tua veste, como a dos que no lagar pisaram as uvas? O herói lhe responde: Eu calquei aos pés os meus inimigos e foi o seu sangue que matizou todos os meus vestidos [Is 53, 1-3: 1ª leit. 4ª feira Santa].

A Paixão é principalmente vitória, e triunfo. Mas neste, como em todos os mistérios, só a Fé nos pode introduzir. O homem terreno que tudo avalia pela superfície, que só vive daquilo que os sentidos lhe dão testemunho, olha para Cristo crucificado e, ou se escandaliza, como os judeus ou o trata de louco, como os gentios [Cfr. 1Cor 1, 23].

No patíbulo dos malfeitores, Cristo não é malfeitor; é o Santo de Deus e o batalhador a favor dos homens, contra as armas inimigas do príncipe das trevas, Satã. Sobe à Cruz como a um trono real. E uma vez levantado nela, «todas as coisas serão atraídas a Si» [Jo 12, 32], para a Seus pés prestarem a homenagem devida ao Rei do universo reconquistado.

Na epístola aos Hebreus, lida no domingo da Paixão, Jesus aparece, como nas antigas representações da crucifixão: Cristo em majestade, «Pontífice que, pelo Espírito Santo, a Si mesmo se oferece à glória de Deus» [Hb 9, 14]. A Paixão triunfante parece ser a ideia fundamental da liturgia desta quadra. O que é roxo e lúgubre é o pecado – a obra de Satã. A de Jesus, essa é conquista, vitória, Redenção.

Domingo de Ramos, início da Semana Maior, é um dia triunfal. A procissão das palmas não é apenas a evocação dum gesto das crianças judias; é o gesto da Igreja de hoje, conduzindo entre hossanas «o vencedor triunfante» [Domingo de Ramos, antífona da Procissão]. O termo da procissão diante da porta do templo cerrada, que ao ser tocada pela haste da Cruz se abre de par em par, é eloquente demonstração do sentido vitorioso da Cruz. A missa que se lhe segue é, de novo, nos seus cânticos e no Evangelho, a voz da vítima divina sob o peso da justiça do Pai; mas, na epístola, todos dobram o joelho diante d’Aquele que, por Sua obediência até à morte e morte de cruz, conquistou um nome que está acima de todos os nomes, «Dominus Jesus», o Senhor Jesus. Na Sexta-Feira Santa, pela única vez no ano, dentro do ciclo temporal, ou seja, na estrutura fundamental do seu ano litúrgico, a Igreja veste-se de negro. É que neste dia se cumpriu no Filho de Deus a sentença devida ao homem pecador. Morrerás! O negro é a cor do nosso pecado. Mas, o mistério de Vida que essa morte realiza e que a Igreja com os olhos místicos de Fé contempla, aparece glorioso na Cruz descoberta e erguida pelos ministros sagrados, que no-l’A apresentam, cantando: «Eis o lenho da Cruz, onde foi suspenso o Salvador do mundo» [Cântico durante a Adoração da Cruz]. E logo se entoa: «Adoramos, Senhor, a Tua Cruz e louvamos a Tua santa Ressurreição». Ressurreição! É o fruto que se desprende desta Árvore da Vida!

E enquanto pelo templo se desdobra a procissão com a sagrada Reserva eucarística, «in mei memoriam» [Cânone da Missa], para memória do Senhor, guiada pela cruz descoberta, soam as estrofes triunfais do «Vexilla Regis prodeunt»: «Eis que avança o estandarte real, refulge o mistério da Cruz!, na qual a Vida sofreu a morte, e pela morte nos deu a Vida. Ó árvore bela e refulgente, ornada de púrpura real, bendita tu em cujos braços, como numa balança, foi avaliado o preço do mundo».

A Cruz trono de Rei e balança de Juíz!

As antigas ofensas dos homens, temporárias vitórias de Satã, que o Senhor tão largamente tolerou, para nos Seus insondáveis, desígnios fazer brilhar mais as Suas misericórdias, foram agora julgadas: «Nunc judicium». Esta é a hora do julgamento. O príncipe deste mundo vai ser lançado fora» [Jo 12, 31].

No Calvário, o centurião pressentiu-o. Mas a pedra do sepulcro rolou. Roma, a dos muitos deuses, pôs o selo sobre a pedra. As santas mulheres ficaram em frente do sepulcro, contemplando. Como a Igreja, como cada um de nós! O dia de Sábado Santo é esta contemplação e esta descida ao túmulo com Jesus. Aquele sepulcro é o túmulo da morte. Não brilha ainda o Juízo de Deus. Mas sobre ele, a Igreja canta palavras de certeza e de Paz, como nas lápides das catacumbas, que são já triunfo sobre a morte e sobre o pecado e sobre o inferno e sobre «o príncipe deste mundo»: «In pace! In spe!» [Duas antífonas – Sábado Santo].

A terra, que só dava espinhos e abrolhos, regada com o Sangue de Jesus, refloriu e tornou-se de novo o paraíso.

Quantos há que olhando para a Igreja a não reconhecem como esse novo Éden, cheio de bênçãos de Deus e já sem maldições!

Quantos vendo a Cruz a não crêem como a «Arvore da Vida», cujo fruto é «belo à vista e agradável ao paladar»! .

Quantos contemplando o Crucificado o não procuram como o fruto dessa Árvore, que dá a imortalidade a todos os que O comem!

Como a Senhora da Soledade, a Igreja, as almas iluminadas pela Luz inapreciável da Fé, contemplam e esperam em Paz. A próxima noite é a Ressurreição, a de Cristo e a sua própria, pelo Baptismo ou pela Renovação da graça e das promessas baptismais. «Pelo Baptismo fomos sepultados com Cristo e com Ele ressuscitamos» [Cf. Rm 6, 4].

Deste modo o mistério que se contempla, torna-se, pela graça sacramental do Baptismo ou da Penitência, do Sacrifício eucarístico, pela renovação das promessas baptismais, enfim, pela celebração litúrgica, na noite sem trevas da grande Vigília, o mistério torna-se de morte ao pecado e de Vida em Cristo, a nossa própria morte e nossa própria vida: «Morrestes, e a Vossa Vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, vossa Vida, aparecer, então também vós aparecereis com Ele, na glória!» [Col 3, 3-4; Epístola da Missa da Vigília].

E assim que brilha refulgente o mistério da Cruz!

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