4 Outubro, 2018

O Oitavário pela Unidade dos Cristãos

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Autor:  Cónego José Ferreira

Citação: FERREIRA, José, “O Oitavário pela Unidade dos Cristãos”, Novellae Olivarum 167 (1960), pp. 23-28

 

Desde o Cenáculo, em que o Senhor em pessoa, rezou, após a instituição da Eucaristia, na última Ceia, pela unidade dos cristãos (João, 17), desde essa oração suprema de Jesus, que os cristãos se habituaram a orar por esta mesma intenção. E se a nós hoje não nos é muito habitual rezar pela Igreja e pela unidade cristã, a Ela, à Santa Igreja de Deus, não houve, desde o início, intenção que mais querida lhe fosse: «Lembrai-vos, Senhor, de conservardes a Vossa Igreja, na paz e na unidade…» (Didachê, Canon da Missa, etc.).

Aquela que fora a primeira nas intenções e no Amor de Cristo, a Sua Igreja, essa devia ser também o primeiro objecto da acção de graças e da oração dos cristãos.

A oração de Jesus, chamada «oração sacerdotal» a que atrás nos referimos, tem como objectivo primeiro a união dos cristãos, união na mesma Fé, na mesma Esperança, no mesmo Amor, na mesma oração, a testemunhar assim, aos olhos de todos, que aquele Cristo em Quem eles acreditam é o Enviado de Deus, «para que o mundo creia que Tu me
enviaste» (João, 17, 21). Cristo deve ser o centro de encontro de todos os cristãos e eis que sucede o contrário, ao menos para grande parte dos que se dizem cristãos: querendo ser todos d’EIe, não são todos um n’Ele, na unidade do Seu Corpo, que é a Igreja. Desta sorte, a oração antiga pela unidade, que nós hoje poderíamos talvez dizer simplesmente, pelo aumento da Caridade, para com Deus e para com o próximo, passou a ter uma outra imperiosa necessidade, a da união em Cristo de todos os que, aceitando-0 a Ele, não se encontram, por Ele, na Unidade da mesma comunidade cristã.

Para nós, católicos, o problema da unidade parece não ter, à primeira vista, dificuldade de maior; os cristãos, que aceitam os legítimos Pastores do povo de Deus, os Bispos em comunhão com o Papa, sucessor de Pedro, esses são a verdadeira Igreja de Cristo. Outros, que se chamem com o nome de cristãos, mas que estejam fora desta unidade católica, são cismáticos e estão fora da Igreja. No entanto, aceitando Cristo e o seu Baptismo, eles estão mais perto da unidade cristã que outros que O não aceitam.

Daqui, que faltando a Unidade, aquela Unidade que devia dar perante o mundo testemunho de Cristo, a desunião entre os cristãos é antes escândalo para o mundo e certamente que impede muitos homens de virem até Ele.

Sucedeu até que, nos últimos séculos, nós, os católicos, fizemo-nos, por vezes, das verdades de Fé, uma ideia demasiado apologética, e assim transformámos a pregação em polémica, a fidelidade a Cristo em luta contra os cristãos que não fossem católicos, e julgámos dar glória a Deus cada vez que humilhássemos os homens, mesmo que fosse para apregoar certos aspectos da Verdade.

Não queremos com isto defender, antes muito ao contrário, certa política de mão estendida em matéria de vida religiosa, confundindo «boa intenção» com «verdade objectiva», chamando «caminho recto» a todo aquele que cada um, fantasistamente, a si mesmo se traçou. Não, nós queremos dizer que o Cristo que qualquer homem invocar é um só, «Cristo, Filho de Deus vivo», nascido da Virgem Maria, e que todos aqueles que se abrigam sob o Seu Nome, todos esses viram, embora nublada por nuvens mais ou menos espessas, o resplendor da estrela de Belém.

Acresce, além disso, que muitas confissões cristãs rezam, desde séculos, numa liturgia idêntica às liturgias católicas, como é o caso dos orientais, ou mantêm muito da antiga liturgia romana, como sucede com os anglicanos ou até com os protestantes do continente europeu.

O movimento actual, conhecido com o nome de ecumenismo é, no fundo, manifestação do sopro vital do Espírito de Deus, movendo todos para o grande encontro. Que extraordinário testemunho cristão não daríamos perante o mundo agnóstico ou materialista do nosso tempo se todos os que acreditamos em Cristo, nos encontrássemos na mesma comunidade de oração e de Amor, na sua Igreja!

Assim falavam em 1958 os bispos anglicanos, reunidos em conferência: «Uma Igreja dividida não pode levar o remédio às feridas dum mundo dividido. Por isso, o nosso trabalho mais urgente tem em vista as nossas divisões».

Deste voto, a tradicional oração pela Unidade da Igreja reveste em nosso tempo sentido especial; já não é a oração pela Igreja, que é una, para que se não separe desta unidade, como nos primeiros séculos, mas é agora a oração por todos aqueles que, acreditando em Cristo, não chegam a fazer em tomo d’Ele a sua Igreja Una, porque se não encontram no Seu único Corpo, que é a Igreja.
É com este sentido que se instituiu, em nosso tempo, o oitavário de oração pela Unidade dos cristãos, nos oito dias que vão da festa da Cadeira de S. Pedro (18 de Janeiro) à festa da Conversão de S. Paulo (25 do mesmo mês).

«A ideia deste oitavário foi concebida conjuntamente por dois eclesiásticos anglicanos. Um deles é M. Spencer J. Jones, uma das personalidades mais em destaque entre os ingleses, escrevia se em 1931, num opúsculo da abadia de St.° André, Bruges, sobre o oitavário. O outro, M. Louis Wattson, era nesta época pastor da igreja episcopaliana nos Estados Unidos. Ambos se preocupavam vivamente em favorecer as tendências à união de todas as confissões cristãs em volta da Sé Romana. Desde 1908 que este oitavário foi celebrado em certo número de comunidades protestantes anglo-saxónicas. No ano seguinte M. Wattson pediu ao Papa e obteve de Pio X aprovação da sua piedosa iniciativa. Wattson pouco depois converteu-se ao catolicismo, e teve a alegria de ver a sua iniciativa adoptada pela própria Igreja Católica, que actualmente, todos os anos, se reúne em oração por esta mesma intenção.

O oitavário tem despertado por toda a parte o mais vivo interesse. Foi seu grande apóstolo o Padre P. Couturier de Lyon, falecido em 24 de Março de 1953. Segundo a orientação do Padre Couturier, o oitavário afirmou-se não tanto como dias de oração pela «conversão» dos não católicos, (o que tornaria impossível a oração pela unidade noutros meios fora do Catolicismo), mas antes como Semana de Oração Universal, em que cada um, em todas as confissões cristãs, em perfeita abertura de espírito e de coração, pedisse ao Senhor a graça da Unidade cristã para a Igreja de Cristo, como Ele a quis e pelos meios com que Ele a quis.

Desta sorte, a Semana será um levantamento de almas, movidas por grande impulso de Caridade, em ordem ao grande encontro na casa do Pai comum. Talvez que o facto de a União Missionária do Clero se ter tomado grande propagandista deste oitavário desde 1927 tenha, por vezes, feito confundir, em alguns espíritos, a intenção do Oitavário com as intenções missionárias. Mas a grande intenção desta Semana da Oração Universal é propriamente a Unidade dos Cristãos na Igreja de Cristo: pôr todo o mundo cristão em oração pela sua unidade.

Não se trata tanto duma Semana de informação sobre o mundo dos ortodoxos, anglicanos ou protestantes, como duma Semana de oração pela unidade de todos. Todos e um não são números naturalmente redutíveis. Aí está o testemunho vivo: Nós somos muitos. Só Deus fará a unidade. Daqui, a necessidade da oração. E o Senhor quer a unidade. Os que n’Ele se encontram, encontram-se na Unidade, são uma comunidade, são a Sua Igreja.

Não esqueçamos que os não católicos também podem rezar, e, em países onde abundam membros de várias confissões cristãs, tem-se visto, em circunstâncias raras, é certo, todos juntos orando por esta intenção, evitando sempre aquelas formas de culto, que implicam necessariamente tal ou tal confissão.

Entre nós, que saibamos, o Oitavário não conseguiu ainda o interesse que a intenção merece. A distância a que habitualmente vivemos de meios não católicos, que quase os não haverá entre nós, ou, onde os há, a pouca consideração com que nos olhamos uns aos outros, eles a nós e nós a eles, e é bem triste que assim seja, faz com que não sintamos muito o escândalo da desunião. Mas, em nosso tempo, quando tudo se vai internacionalizando, quando o convívio é internacional e os países vão abolindo os «vistos» dos passaportes, agora que nos vamos começar a encontrar em todos os campos humanos, como vai ser o encontro dos cristãos quando se encontrarem para orar a Deus «Pai nosso» ou para celebrar no banquete da Eucaristia a «Memória do Senhor»? Somente em Igreja, e na Igreja de Cristo. Deus não ouve senão a voz do Seu Cristo e Cristo só vive na sua Igreja. É necessário, pois, que Ela lhe fale com uma voz una, a voz de Cristo, o Unigénito.

Podemos lembrar a propósito da unidade desta Igreja de Cristo palavra de S. Cipriano, bispo de Cartago: «Não pode ter a Deus como Pai, quem não tem a Igreja como Mãe»; e a propósito da Eucaristia, a de S.Paulo: «Somos um só corpo todos os que comemos dum só pão».

A MISSA, PRIMEIRA FORMA DE ORAÇÃO

O texto de S. Paulo, atrás citado, faz eco da primitiva celebração da Ceia do Senhor, que cimentou na unidade do «Amor, forte como a morte, a intrépida geração dos primeiros mártires e virgens. É a celebração da Eucaristia a primeira forma de oração pela Unidade. Não apenas a celebração da Missa por um sacerdote a que os fiéis «assistem», como todos os dias, mas a celebração conscientemente participada em que se faça sentir a presença da comunidade orante e comungante na União a Cristo e a todos os irmãos. Não é a Eucaristia o banquete da Unidade? Mas não só em si mesma, senão na maneira, aliás a normal, da sua celebração. «Se a Igreja faz a Eucaristia, reciprocamente a Eucaristia faz a Igreja», porque faz a sua unidade, cimentando os seus membros naquela Vida una do amor que «o Espírito Santo derramou em nossos corações» que, enquanto regra moral de vida, constitui o primeiro mandamento: «Amarás».

VIGÍLIA DE ORAÇÃO

Além da Missa, outras reuniões devem constituir o tempo de oração comunitária da Semana. Aqui toma-se impossível determinar o esquema de oração que convém a cada comunidade concreta. Geralmente teremos de limitarmo-nos, por enquanto, a fórmulas muito rudimentares, dada a enorme falta de formação, quando não deformação, dos nossos fiéis. Todavia, pode ser esta mais uma ocasião de os ajudarmos a formar com mais profundidade e mais verdade.

A pregação pode e deve ser um elemento activo desta reunião, mas não a pregação isolada, desenquadrada dum ambiente de verdadeira oração. Não se trata apenas de elucidar, muito menos de informar escolarmente o auditório sobre dados estatísticos, mas de fazer sentir cristãmente o mistério da unidade cristã, quer em relação a todas as confissões não católicas, quer adentro da própria comunidade católica, fazer sentir e rezar por essa unidade, unidade com Cristo e unidade em Cristo. A primeira, unidade com Cristo, de sorte a fazer compreender que é Cristo o centro unificante de toda a unidade; a segunda, unidade em Cristo, em ordem a provocar no coração de todos os cristãos, um profundo sentido de caridade, de União simplesmente, de Unidade, visto os que se encontram em Cristo serem um só n’Ele.

Damos a seguir um esquema do que poderá ser uma celebração de oração pela unidade. Este género de oração convém sobretudo a comunidades mais familiarizadas com a Sagrada Escritura, ou que, através da celebração, possam vir a contactar mais com a Palavra de Deus, presente na Escritura Sagrada.

Cântico de abertura: «Toda a terra Vos adore, Jesus Cristo Salvador», (in Eucaristia, cânticos para a missa. P. Manuel Luís, p.10).

Saudação do Presidente:
a) «Seja louvado N. S. Jesus Cristo…» ou
b) «Que a graça e a paz esteja com todos os que amam a N. S. Jesus Cristo.
R: Amen.

Exposição do Tema – «Deus chamou-nos à Unidade, em Cristo».

A unidade é uma vocação, e consequentemente uma graça de Deus. Somos membros duma mesma sociedade humana, sociedade que o pecado dispersou e desuniu. Deus chamou-nos de novo à unidade, no Corpo Místico de Jesus, que é a Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica.

1ª leitura: O plano divino da nossa redenção na unidade em Cristo. Ef. 2, 13-22.

Cântico de meditação: «Onde haja Caridade e amor» (in «Eucaristia», p. 34)

2ª leitura: Apelo a conservar a unidade, que é dom e Graça do Senhor, fruto do seu Espírito. Ef. 9,1-6; 14-16.

Cântico de meditação:
a) «União fraterna» -Ficha C-3,
b) «Mandamento novo» (in «Eucaristia» p. 36)

3ª leitura: S. João, 17, 1-3; 18, 20-26.
Ou
S. João 2, 46-52.

Homilia (Na linha do pensamento fornecido por toda a celebração, mormente pelas leituras).

Oração: a) dos Fiéis:

1. Oremos, irmãos, por toda a santa Igreja, para que Deus, nosso Pai e Senhor, que a chamou a ser o corpo de seu Filho, a conserve na paz e na unidade:

R. Senhor, tende piedade e ouvi-nos.

2. Que Deus ilumine todos os que obcecados pelo erro ou pelo orgulho, não chegam ao conhecimento da Verdade que é só N. S. Jesus Cristo.

3. Que todos os que foram marcados com o sinal de Cristo, no santo Baptismo, venham à Unidade de Vida em sua Santa Igreja.

4. Que todos os cristãos sejam levados por um grande movimento de
caridade, de sorte a não se hostilizarem uns aos outros, mas antes a
procurarem compreender-se e amar- se no único amor de Cristo.

5. Que todos os cristãos reconheçam ao Vigário de Jesus Cristo, o Papa, como o centro visível da universal unidade cristã.

Invoquemos a Cristo Senhor, para que chame à Unidade da Sua Igreja todos os que se chamam com o nome de cristãos.

6. Senhor Jesus, que todos sejam um, como Vós e o Pai sois um só.

7. Senhor Jesus, não permitais que a Vossa Palavra seja instrumento de divisão entre os vossos fiéis.

8. Senhor Jesus, não permitais que o banquete da Unidade, – Eucaristia – seja celebrado por tantos, como banquete de desunidos.

9. Senhor Jesus, que o Vosso bendito Nome e o Nome de Vossa Santíssima Mãe não sejam por mais tempo pronunciados fora da unidade da família cristã.

10. Senhor Jesus, que os homens não separem aqueles que Vós chamastes à Unidade duma só Igreja, à custa do vosso sangue, derramado em sacrifício.

11. Senhor, que a universal união de todos os cristãos no Vosso amor, seja para o mundo o grande testemunho de que Vós sois o Messias – o Enviado do Pai, – e o Salvador de todos os homens.

12. Que todos os que em Vós crêm, em Vós esperam e Vos amam, rezem ao Pai do céu, num só coração, numa só alma e numa só voz, a oração que Vós mesmo nos ensinastes e que agora lhe rezamos;

Pai nosso…

b) tempo de oração em silêncio (alguns minutos)

c) do presidente:

Oremos. Senhor nosso Deus e nosso Pai, Vós chamastes todos os que crêm em Vosso Filho, Jesus Cristo, à unidade da mesma Igreja, fundada sobre Pedro; e fizestes, a esta mesma Igreja, a graça de comungar na Vida do Vosso próprio Espírito, que é o Vosso Amor substancial. Para tanto Jesus nos deixou o banquete divino da Eucaristia, onde todos os que oferecem e comem o mesmo Pão, participam, convosco e entre si, dessa Vossa mesma Vida.

Dai agora, Senhor, humildemente Vo-lo suplicamos, a todos os que Vos invocam em Nome desse Vosso mesmo Filho Jesus Cristo, o Espírito de Amor e de União, na Unidade da vossa Igreja, que é uma só. Lembrai-Vos, Senhor, de a congregar na Unidade. E assim como o trigo espalhado sobre os montes se congregou para fazer um só pão, assim se congregue a Vossa Igreja, dos confins da terra, no Vosso Reino.

– Amen

Uma das duas primeiras leituras, de preferência a segunda, poderia ser substituída pela de algum texto patrístico, por exemplo, do De Unitate Ecclesiae de S. Cipriano e de alguma encíclica pontifícia.

Que a celebração corra em verdadeiro ambiente de oração.

E que todo o movimento da Semana crie na comunidade cristã verdadeiro e real interesse pela situação triste que neste momento oferece ao mundo pagão a cristandade desunida. A isto deve conduzir um dos objectivos apontados por Sua Santidade, o Papa, para o próximo concílio ecuménico. Tanta bastará para sublinhar a importância da oração pela unidade cristã.

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